Pitbull ou Rottweiler: quem é mais forte, de verdade
A pergunta é a mais buscada sobre as duas raças e a que menos se sustenta: "pitbull" não é uma raça, "força" não é uma medida só, e os números de mordida que circulam vêm de estudos pequenos que ninguém lê até o fim.

É a pergunta mais buscada quando alguém compara as duas raças, e vale começar pelo problema dela: "força" não é uma medida única, e "pitbull" não é uma raça.
Dá para comparar porte, que tem número confiável. Dá para descrever função original, que está documentada. O que não dá é chegar a um vencedor, e as tabelas de mordida que circulam na internet prometem exatamente isso, com dados que não aguentam leitura atenta.
"Pitbull" não é uma raça
O termo é guarda-chuva. Cobre o American Pit Bull Terrier, o American Staffordshire Terrier, o Staffordshire Bull Terrier e, no uso popular, qualquer cão de cabeça larga e porte médio, inclusive mestiços sem ascendência nenhuma desses grupos.
Isso sozinho inviabiliza a comparação. Um Staffordshire Bull Terrier adulto tem de 11 a 17 quilos; um American Pit Bull Terrier vai de 16 a 30. São animais diferentes sob o mesmo apelido.
O Rottweiler, do outro lado, é uma raça com padrão escrito e faixa definida: 61 a 68 cm e 50 a 60 kg no macho, 56 a 63 cm e 42 a 50 kg na fêmea.
Os números de mordida não sustentam o que prometem

As tabelas de PSI que aparecem em qualquer busca têm três problemas, e nenhum deles é pequeno.
O primeiro é a amostra. Os números mais citados vêm de estudos com pouquíssimos animais por raça, em alguns casos três. Nenhuma média de três cães descreve uma raça inteira.
O segundo é o método. Medir mordida em cão vivo depende de estimulá-lo a morder um sensor, e a força registrada varia com motivação, ângulo, fadiga e treino. O mesmo animal dá leituras diferentes em dias diferentes.
O terceiro é a extrapolação. Boa parte dos valores que circulam nem sequer foi medida: foi calculada a partir de modelos de crânio. Modelo é estimativa, e vira "fato" quando entra num infográfico.
O que se pode dizer com segurança é banal: cão maior, com cabeça maior e musculatura mandibular maior, tende a morder com mais força. Isso favorece o Rottweiler pelo simples fato de pesar o dobro, e não diz nada sobre o que qualquer um dos dois faria numa casa.
O que a função original explica
O Rottweiler foi selecionado na Alemanha para conduzir gado e guardar patrimônio. Era o cão dos açougueiros de Rottweil, que tocava o rebanho até o mercado e depois guardava a bolsa do dinheiro. Guarda com discernimento é o trabalho para o qual a raça existe.
Os tipos pitbull vêm de cruzamentos ingleses do século XIX feitos para combate. É um passado desagradável e é honesto dizê-lo, mas ele não define o cão de hoje: décadas de seleção para companhia mudaram a população, e a maioria desses animais vive como cão de família.
A diferença prática que sobra é outra: o Rottweiler tende a ser mais reservado com estranhos e mais ligado ao território; os tipos pitbull tendem a ser mais sociáveis com pessoas. Nenhuma das duas coisas é vantagem em abstrato. Depende inteiramente do que se espera do animal.
A pergunta que vale a pena

Quem pesquisa "qual é mais forte" quase sempre está decidindo qual levar para casa. Para essa decisão, força é a variável menos útil que existe. O que muda a rotina é outra lista.
O porte. Um cão de 55 quilos derruba uma criança sem intenção nenhuma, e puxa a guia com força que nem todo tutor segura. Um de 25 não. Tratamos disso em Rottweiler gigante.
Espaço e exercício. As duas raças precisam de atividade diária real. Quintal não substitui passeio em nenhuma delas.
O convívio com outros cães. É onde os tipos pitbull costumam exigir mais manejo, e onde o Rottweiler exige atenção entre adultos do mesmo sexo.
Legislação e seguro. Vale conferir as regras do seu condomínio e do seu município antes de escolher, para qualquer raça de porte grande.
E o temperamento dos pais, que vale mais que a raça no papel. É o que dá para ver antes de comprar, e é o que recomendamos olhar em filhote de Rottweiler puro.
O que o mito de força custa às duas raças
A conversa sobre mordida alimenta duas coisas ruins.
Do lado de quem teme, alimenta legislação por aparência e a ideia de que existem cães perigosos por natureza, quando os fatores que realmente predizem incidente são falta de socialização, dor não tratada, contenção inadequada e manejo ruim. Explicamos a mecânica disso em por que um Rottweiler ataca o dono.
Do lado de quem admira, alimenta a procura por "linhagem mais forte", que é exatamente o argumento que vendedor sem critério usa. No Rottweiler isso aparece como "cabeça de touro" e "gigante", apelidos comerciais que não constam em registro nenhum e que tratamos em Rottweiler cabeça de touro.
Se a comparação que interessa é com outro molosso de guarda, e não com os tipos pitbull, ela está em Cane Corso ou Rottweiler.
